Marina Zoppei: Da menina viajante à mulher desbravadora


Sabemos que influências paternas são de grande valia para a vida de uma criança. Com Marina Zoppei, de 30 anos, não foi diferente. A desbravadora sempre viajou muito com a família. No entanto, essas experiências em união com os pais e a irmã eram tradicionais perto das aventuras que viajante estava preste a encarar em 2016, onde conheceu 47 países sozinha, totalizando cerca de 103 países já visitados.

“A gente ficava em hotel, resort e fazíamos tours. Fora isso, fui morar na Nova Zelândia por um ano e, depois, fiquei sete meses em Praga, na República Tcheca, fazendo um curso da faculdade. Essas vivências em união com as viagens que fazia em família me fez pegar gosto pela coisa e comecei a querer me desafiar”, explica Marina sobre a ideia de viajar sozinha pelo mundo por dois anos.

A aventureira não começou a viajar sozinha em meio aos seus 18 anos simplesmente por uma questão de egoísmo, mas por conta do cenário no qual a família se encontrara após e retornar de seu último intercâmbio.

“A gente parou de viajar junto porque nossos cronogramas não se conciliavam e eu não queria parar de viajar. Eu gostava muito disso. Sabia da importância de conhecer novos lugares para a minha formação, até da minha personalidade. Viajava desde pequena, é um diferencial até para a minha vida profissional”, declara.

Foi assim que Marina decidiu investir – e se desbravar – em uma viagem de dois anos, período este que se desafiou a viajar gastando menos. Além disso, não bastava economizar. Marina queria sair de roteiros tradicionais e evitar as rotas que já conhecia, incluindo os quase 70 países por onde já passara nas experiências anteriores.

Tudo se deu início em viagem em família. Comecei a viajar mais sozinha por conta de dinheiro e agenda que não batia e peguei gosto. Decidi fazer isso por dois anos da minha vida”

“Quanto mais eu viajava, mais eu conhecia novas pessoas e culturas. E, para economizar, decidi ir atrás de destinos que estavam fora dos planos considerados tradicionais. Então, ao invés de ir para Croácia, eu ia para Bósnia, e comecei a me interessar mais por esses lugares, porque eram mais baratos. Conheci muita gente legal, o perfil dos viajantes que vai para esses locais é diferente e pensei ‘Vou me aventurar nesses lugares também’”, afirma.

Medos e Receios

A palavra “medo” não estava presente no dicionário de Marina. “Vou ser bem sincera. Eu tinha muita vontade de fazer essa viagem. Foi a época que eu tive mais força de vontade na minha vida”, relembra.

Como as viagens já faziam parte do cotidiano da família, o apego aos pais e a irmã também não causou tanta apreensão à viajante. Seus pais, por sinal, foram muito receptivos, conforme afirma Marina e só deixaram claro que ela teria que fazer isso por conta própria e sem o auxílio financeiro de ambos.

“O jeito que fui criada foi sempre muito independente. Já tinha morado fora, assim como minha irmã. A família já está acostumada e nem vai mais pegar ou levar no aeroporto. Se formos fazer isso, moraremos nos próprios terminais aeroportuários”, brinca.

O receio dos pais só veio à tona quando a aventureira decidiu mostrar os lugares que gostaria de visitar e, por isso, teve de realizar um trabalho preparo psicológico em união com eles. “Tive um pouco de um ano para preparar a cabeça deles e explicar que se tratava apenas de um preconceito da sociedade. À medida que ia me preparando, ia preparando eles”, conta.

“Eu fui embora com a minha irmã sendo a mesma de sempre e voltei com ela carregando um bebê em seu colo”

Mesmo com uma relação mais independente, Marina assume ter sofrido, principalmente quando já estava viajando e estava perdendo a primeira gravidez de sua irmã, que descobriu a novidade apenas três dias antes de viajar.

“Foi a única coisa que eu realmente sofria. Eu perdi sua gravidez inteira, eu não a vi grávida, não vi o nascimento. No Dia das Mães, eu estava no Uzbequistão, enquanto minha irmã estava grávida, junto com toda a minha família aqui no Brasil. Quando voltei brevemente, para passar o Natal e o Réveillon com eles, pude conhecer meu sobrinho, que já estava com dois meses. Quando voltei definitivo, ele já estava com um ano e pouco”, conta.

Ela lembra com detalhe, por exemplo, quando descobriu que sua irmã daria a luz a um menino. “Eu estava sem internet, chegando no aeroporto. Pousei em Moscou e de lá já liguei desesperada, chorando, porque perdi esse momento”, diz.

Independente de tudo isso, Marina estava decidida a encarar a aventura e reconhecia que se tratava de uma escolha pessoal e usava isso como mantra durante toda a viagem. “Tem momento que você passa que são muito críticos, que você só quer sentar e chorar e pensa ‘o que estou fazendo aqui?’. Mas então você lembra que você escolheu estar ali, vivenciar aquilo e que não está ali obrigada. Pelo contrário, eu estava pagando por aquilo”, nos conta.

Ainda de acordo com ela, foi um ótimo exercício contar com os perrengues que viveu – mesmo que só tenha percebido se tratar de perrengues depois que voltou – para mostrar que não existe a chamada “vida perfeita”.

“As pessoas olham e acham que você está no paraíso, mas a verdade é que você não está. Nunca vai ser uma vida perfeita. Você vai sempre estar infeliz com alguma coisa. É uma coisa que aprendi, por exemplo. Se eu estou infeliz no meu trabalho, eu ter um pouco mais de maturidade de lidar com isso. Não adianta jogar as coisas pro ar”, aconselha.

Saindo do mundo corporativo

Marina sempre foi ensinada pelos seus pais que o trabalho é o instrumento que proverá viagens e, consequentemente, ter momentos em família e conhecer novas culturas.

“As pessoas até me achavam maluca. Eu saia do meu trabalho com a mochila nas costas e ia direto para o aeroporto e voltava no voo das 6h da manhã e ia direto para o trabalho. Não passava em casa nem para um banho. Eu não queria deixar de viajar um minuto sequer. Então, comecei a ver que aquilo era o propósito de estar lá trabalhando. No entanto, não estava satisfeita”, confessa.

“Eu não quero perder um minuto das minhas férias não viajando e aproveitar até o último momento”

De acordo com ela, quando ela retornava, se sentia bem cabisbaixa e tomou, por fim, a decisão de pedir demissão para viajar. “As pessoas acham um sonho e muita coragem fazer isso o que fiz. Contudo, aviso que se você tem dificuldade de fazer isso, não faz. Pedir demissão é a parte mais fácil. Para mim foi uma decisão muito clara. Sempre estudei muito na minha vida para poder ter um nível de empregabilidade alto e poder pedir demissão, voltar e ainda escolher onde trabalhar”, se orgulha.

A viajante assume que estudou em escola bem qualificadas e que sempre foi uma boa funcionária, o que lhe proporcionava recomendações profissionais. Os inúmeros “e se…” foram outro propulsor dessa ideia, conforme declara Marina.

“Na verdade, eu nem sabia se ia voltar para o Brasil e se eu iria querer voltar a trabalhar com a mesma coisa. Não vi motivo para ficar me apegando. Não ia me apegar ao que tinha naquele momento, era muito subjetivo, foi uma decisão fácil de ser tomada. Eu quero viajar, eu vou embora, tchau, pedi demissão. As pessoas chamavam de coragem, eu simplesmente chamo de decisão”, destaca.

Quando estava próximo de retornar, Marina viu que as oportunidade eram ainda maiores, até mesmo onde não se viam oportunidades. Segundo ela, pessoas fazem indicações e oferecem empregos.

“É uma coisa insana. Uma semana antes de voltar, anunciei no Instagram e um diretor de uma multinacional me ofereceu uma vaga. As portas se abriram de tal maneira… Porque o que eu fiz é uma coisa fora da caixa e as pessoas admiram isso. Não se olha mais a faculdade que você faz ou a nota que tirou. Eles observam como você lida com problemas, se você tem mente aberta e se é flexível”, aponta.

Por isso, ela ainda declara que aqueles que tomam essa decisão é porque não gostam do cotidiano que vivem e, quando se faz uma viagem dessa e não se gosta da vida anterior, a chance de retornar para ela é zero.

Riscos e precauções

Mulher que viaja sozinha é sinônimo de risco? Para Marina não. Ela acredita que teve muita sorte durante todo o tempo que viajou só e que seu único problema foi quando foi alugar uma moto, na Tanzânia.

De acordo com a aventureira, ela gostaria de conhecer uma ilha e, para aproveitar melhor, gostaria de ir de moto. No entanto, as opções de locais para alugar era escasso, tendo um único comércio voltado para o serviço. O atendente começou a assediá-la e, quando a mesma recusou quaisquer ajuda que lhe estava sendo oferecida – com segunda intenções – o aluguel da moto, que inicialmente era US$ 5 por dia passou a ser US$ 100.

“Eu não tinha muito o que fazer, nem reclamar com a polícia. Eu sou muito de fazer amizade com os locais e quando comentei isso com um colega que conheci por lá e falei que estava chateada com a situação, ele arranjou uma moto e me levou para os lugares que queria conhecer. No fim, ainda sai ganhando. Não precisei dirigir, fui onde queria e ainda contei com um local me falando sobre os atrativos. Além disso, ele ainda se desculpou pela atitude do atendente do aluguel de moto”, detalha.

No entanto, fora essa situação, ela acredita que viajar sozinha é uma vantagem, principalmente para aquelas que sabem usar isso ao seu favor. “Você conquista coisas que um homem viajando sozinho, por exemplo, não conseguiria. As pessoas têm mais compaixão, eu era mais ajudada e sem interesse. Até outras mulheres viam falar comigo e queria me ajudar e cuidar de mim. Me ajudavam até a atravessar a rua”, comenta.

Contudo, para isso, a desbravadora acredita ser importante ser o mais neutra possível, assim como ela buscou ser. “Procurei fazer com que as pessoas me notassem o mínimo possível. Era uma estratégia. Eu usava roupas conservadoras, não importava onde estava, seja Europa, Uzbequistão ou na África. Eu tentava não me destacar”, conta Marina, que acredita que isso auxilia também até a lidar com as mais distintas culturas.

Perrengues? Nunca nem vi

Mesmo após dois anos, Marina retornou ao Brasil com dinheiro sobrando, conseguindo, assim, fazer tudo de um jeito super econômico. Para conseguir tal economia, ela afirma que não passou por muitas dificuldades, pelo menos, nenhuma desesperadora.

“Eu mesmo estava me testando, se desse alguma merda, eu tinha dinheiro para sair dali de helicóptero e me virar. Contudo, em nenhum momento eu precisei disso. Sempre antes de chegar neste extremo eu tive pessoas me ajudando, sempre contei com amparo antes de chegar em momentos críticos. Se não diariamente, semanalmente contava com pessoas ao meu lado”, ressalta.

Pode até ser que, enquanto vivenciava toda a experiência, Marina não tenha se sentido em algumas situações difíceis, mas confessa que teve situações não tão fáceis que ela notou quando retornou ao Brasil.

“Eu falo ‘gente, como eu era louca. O que eu estava fazendo e onde estava com a cabeça?’, porque eu passei alguns perrengues sim, mas não sentia nada enquanto estava por lá. Por exemplo, uma moto quebrar as 3h da manhã em um local deserto da Indonésia e ter que andar quatro quilômetros carregando uma moto. Outra situação foi ficar presa dois dias em Brunei porque eu não tinha o visto para entrar no país”, se diverte enquanto conta.

“As pessoas falavam ‘que perrengue!’ e eu dava risada. Para mim, era tranquilo”

Após todos esses momentos, ela afirma: “hoje eu olho que se eu fizesse uma viagem dessa de novo, eu não iria nesse nível desafiador que eu fui. Faria diferente. São fases e épocas diferentes. Estou mais madura”, afirma.

Sozinho não fica

Marina podia até estar viajando sozinha, mas sozinha ela não ficava. De acordo com ela, até mesmo quando queria estar sozinha, não conseguia.

“Chega um momento que você pensa que está tendo a mesma conversa todos os dias em looping, com as mesmas pergunta. Então, as vezes chegava em um hostel com cortina na cama só para deitar lá, fechar a cortina e fingir que não estava ali ou até fingia que não sabi afalar inglês. Mas é difícil. Sempre vinha alguém bater papo ou você ouvia uma conversa de alguém no quarto e começava a rir. É impossível”, admite.

Se isso foi algo ruim? Marina deixa claro que não, principalmente porque reconhece que seus melhores amigos e as pessoas com quem mais fala ela conheceu durante as viagens. “Às vezes fico até triste por não conseguir interagir com ela o tempo todo. No entanto, se acontece algo importante em minha vida, essas são as primeiras a ficarem sabendo. Não foram muitas amizades, mas são boas”, se orgulha.

Hora de voltar ao Brasil

Foram dois anos de aventurando pelo mundo, mas Marina reconhecia que voltaria em algum momento. Contudo, voltou não por questões financeiras, já que tinha dinheiro ainda para ficar mais um ano conhecendo pessoas e culturas, mas a saudade de casa a motivou a pegar o avião e voltar para sua cama, seu chuveiro, sua casa. Foi durante sua aventura que começou a sentir mais falta da família e a valorizar as coisas que tinha aqui.

“Na minha última semana eu nem aproveitei direito porque eu estava desesperada para voltar. Assim como foi fácil tomar a decisão de ir, foi fácil a decisão de voltar. Percebi que não estava aproveitando mais, foi sem sofrimento nenhum. Mesmo assim, minha cabeça continuou viajando. Por mais que dormisse no meu quarto, demorei abrir meu armário, não largava minha mochila, fui me adaptando aos poucos”, detalha a viajante, que até se lembra em se preocupar em levar marmita para o trabalho a fim de economizar.

Quando estava para voltar a trabalhar, pensava consigo mesma o que iria falar na sua entrevista de emprego caso perguntasse: “o que você ficou fazendo nesses dois anos e o que mudou”. “Eu tinha muito medo dessa pergunta, porque eu não sabia como responder, ainda não tinha chego a nenhuma conclusão”, confessa.

Para lhe auxiliar nessa missão, Marina decidiu reler seu diário de bordo, onde escreveu durante seus primeiros quatro meses. Além disso, começou a rever as fotos e a relembrar os desafios que tinha passado em cada dia.

“Eu dava risada. Parecia que eu estava lendo o diário de uma criança de 11 anos. Foi ali que percebi o quanto eu tinha mudado. Eu me preocupava porque eu estava sem a reserva do hostel, coisa mais natural para mim hoje em dia. Sofri muito no começo porque eu não estava confiante que as coisas dariam certo com a reserva e foram vários momentos que vi esse amadurecimento da minha parte”, diz.

Ainda de acordo com ela, essa sua mudança também foi percebida pelas pessoas próximas a ela, como sua mãe. “Ela me lembrou a vez que eu perdi um voo na França e eu liguei desesperada. Já durante minha viagem, teve a situação dos dois dias que fiquei presa em Brunei. Eu me divertia, tirava fotos, vídeo, fingia que era Tom Hanks no filme ‘Terminal’ e ela só ficou sabendo que passei por isso cerca de uma semana depois”, conta.

De novo? Acho que não!

Ao ser questionada sobre se faria novamente essa viagem, Marina não hesita ao afirmar que não. “Eu acho que dois anos foi realmente muito longo, eu tinha receio de voltar para o Brasil e não achar logo um emprego por conta das questões econômicas difíceis. O ideal para aproveitar e sentir que as coisas estão ficando mais cansativas é uns oito meses”, aconselha.

“Depois de oito meses, você cansa da vida de nômade”

Contudo, ela deixa claro que os planos de viajar continuam, no entanto, de uma maneira distinta. “Faria motorhome e viajaria a América, que é uma parte que eu gostaria de ter explorado quando passei meu Natal e Réveillon aqui no Brasil. Hoje mesmo eu não tenho vontade de viajar a longo prazo, mas tirar umas férias.

Faria diferente

Marina acredita que, se pudesse, mudaria uma coisa essencial em sua viagem, algo que ela chama de dica. “Não é muito arrependimento, é mais um lamento. Eu fiquei muito neurótica com dinheiro. Cheguei a fazer loucuras para economizar. Eu teria falado para me preocupar menos com isso e continuar procurando vivenciar tudo sem colocar minha segurança em risco, como eu cheguei a fazer”, assume.

Essa questão financeira, de acordo Marina, não foi um erro de planejamento, mas sim de um hábito que vem em forma de proteção, já que ela estava ciente que alguns comércios cobravam a mais quando notavam que era estrangeira.

“Não queria ser passada pra trás. Pechinchava o máximo que podia. Desta forma, essa economia virou uma configuração mental automática. Faz um ano e meio que voltei e notei que vim lidando de uma forma totalmente diferente com dinheiro por causa disso. Não foi falta de planejamento nem para querer viajar mais, era simplesmente um hábito”, nos conta.  


Leia também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Post