O poder da viagem: a prisão de um anel e a liberdade pelo Brasil

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Às vezes, um fim pode significar um novo começo. Pelo menos foi isso o que aconteceu com Fátima Alves, de 51 anos, de São Paulo. A viajante apaixonada por conhecer novos destinos era presa por um relacionamento abusivo. No entanto, aos seus 26 anos, se libertou de prisões emocionais e psicológicas e começou a desbravar o mundo que habita, começando pelos destinos nacionais. 

“Desde pequena eu sempre quis conhecer os lugares e o mundo. Eu já vivi muita coisa e quero viver muito mais. Comecei a viajar sozinha depois que me separei. Fui em uma excursão para o Sul do País, nas Serras Gaúchas. Parece ser uma coisa besta, mas, para os meus pais tradicionais portugueses, foi uma aventura sem tamanho. Era um roteiro que eu não conhecia ninguém. Foi muito gostoso, fiz amizades e foi nessa viagem que eu decidi que não queria mais dividir quarto com ninguém”, brinca a bem-humorada Fátima. 

De acordo com um levantamento realizado pelo Ministério do Turismo (Mtur), desenvolvido em julho de 2017, a intenção de viagem entre os turistas de 45 a 60 anos cresceu 5,5 pontos percentuais para o segundo semestre do ano frente ao mesmo período de 2016. Já aqueles com idade acima dos 60 anos teve um alavancamento de 3,2 pontos percentuais. Segundo 80% dos brasileiros que possuía pretensão de viajar entre junho e dezembro de 2017, o foco são os destinos nacionais.

Passo inicial

Ainda sobre sua primeira experiência, Fátima declara que tudo o que precisou foi de um sinal sutil, contudo eficiente, chamado publicidade. “Eu estava em casa muito mal, por conta do divórcio, por ter aceitado esse casamento errado. Eu vi uma propaganda sobre uma excursão que ia ser realizada nas férias de julho. Falei: ‘Quer saber? Eu vou!’. Cheguei em casa falando que ia viajar em uma semana e, ao ser questionada pela minha família com quem eu iria, eu falei que iria com um grupo, mas que não conhecia ninguém. Foram ótimos oito dias”, orgulha-se.

Por mais que a família parecesse relutante quanto à nova aventura que iria ser realizada, a viajante sentiu que conhecer novos ares era algo que corria nas veias. “É uma família de imigrantes. Moraram na África antes de eu nascer. Foram 15 anos para tentarem uma vida melhor, mas lidaram com alguns percalços no caminho, como guerra. Voltaram para Portugal e vieram para o Brasil. Também tenho tio que morou e teve filhos no exterior. Inspiração eu sempre tive, só não tinha condições”, destaca. 

A primeira viagem foi repleta de medos e receios. Além de ter discutido com a família sobre sua viagem, Fátima afirma que a aceitação e adaptação no grupo durante o roteiro era uma de suas maiores preocupações. “Queria fazer amizades, não me sentir deslocada, porque era uma excursão que tinha casais e famílias. Logo isso passou. Eu dividi quarto com mais duas mulheres que também estava viajando sozinhas”, relembra. 

A palavra amizade é recorrente quando Fátima fala sobre suas aventuras e, em união com ela, está a palavra felicidade. “Eu sou um pouco diferente da maioria das minhas amigas. Sempre tive um espírito muito livre. Conheci outras pessoas depois que comecei a viajar e ampliar meus horizontes. Percebi que não preciso estar casada, ter um filho e formar uma família para ser feliz. Há outros modos de fazer isso”, ressalta. 

Com 30 cidades nacionais já conhecidas durante esses 25 anos, incluindo passagem por estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Pernambuco, Fátima, que fica, em média, de quatro a cinco dias em um destino, afirma que o novo é o que mais a atrai. “Gosto de saber como aquele povo vive, conhecer o supermercado frequentado e os lugares que as pessoas andam”, completa. Prefere sempre utilizar o transporte local. Segundo ela, isso ajuda a conhecer mais e melhor uma nova cultura. 

Precauções

Inevitável que, quando o assunto seja mulher que viaja sozinha, o tópico assédio não venha à tona. Fátima é ciente de que as mulheres estão muito mais propícias a sofrerem qualquer tipo de violência ou abuso simplesmente por ser mulher. “Mulheres têm que andar com um pouco mais de cuidado, infelizmente. Vivemos em uma sociedade que é machista e patriarcal”, lamenta. 

Para alívio, ela não sofreu, até o momento, nenhum tipo de situação constrangedora ou de violência e explica o porquê de sair ilesa, por mais que o cenário não ajude tanto. “Eu não costumo sair à noite. No Rio de Janeiro, por exemplo, vou tomar um chopp à beira do mar e retorno cedo ao hotel. Além disso, tomo cuidado com bebidas alcoólicas. Sei qual é o meu limite e que há o risco de, caso vir a abusar da bebida, ficar mais ‘facinha’”, alerta. 

No entanto, por já estar na terceira idade, Fátima afirma que não é mais tão observada com fins sexuais. “Na verdade, eu percebo admiração. Até hoje, tive muita sorte das pessoas com quem viajei me ajudarem sem querer algo em troca. Mas é sempre bom estar esperta e manter o controle tanto psicológico quanto físico”, ressalva. 

Planejamento

Os jovens estão desapegando mais de conquistas materiais e correndo atrás de experiências, conforme observa Fátima. “Eles têm facilidades para viajarem mais com menos dinheiro, como financiamento coletivo. Já pessoas da minha idade ainda se preocupam com casa e carro, por exemplo. Os millennials querem o dinheiro para o cotidiano, não para um novo apartamento”, explica. 

Por se tratar de um perfil que ainda se preocupa com questões financeiras, a turista detalha melhor como se planeja para ter dinheiro para suas aventuras. “A técnica é fazer escolhas. Eu gastava muito no cartão de crédito. Fiz um redução de gastos, que caiu de R$ 2 mil para R$ 200. Gasto menos em roupas e em restaurantes do dia a dia. Decidi privilegiar viagens. Não tenho filhos, nem marido. Ou seja, é um salário só para mim e estou usando com responsabilidade para garantir meus próximos roteiros”, aconselha. 

O planejamento fica ainda mais fácil quando levado em conta a questão cambial, que tem oscilado nos últimos meses, com dólar variando entre R$ 3,70 e R$ 4,16, sem contar em consideração o valor do dólar turismo. Com isso, viajar em destinos nacionais são ainda mais motivados. “Eu até combinei de visitar uma sobrinha nos Estados Unidos, mas me arrependi justamente por conta do preço do dólar. É um dinheiro que eu poderia estar economizando para visitar outros lugares pelo Brasil que desejo, como Bonito (MS) e as Serras do Rio de Janeiro”, pontua. 

Tecnologia e acessibilidade

Não é porque se trata de uma mulher na terceira idade que significa que a tecnologia não está ao seu favor. Fátima afirma que utiliza muito os sites de buscas para pesquisar melhor sobre questões de segurança e dicas de lugares e hospedagens, planejando melhor seu roteiro. “Vejo muita gente da minha idade para cima utilizando plataformas mobiles. Isso tem ajudado as mulheres viajarem sozinhas, fazendo seu próprio roteiro, sem necessitar da ajuda de alguém”, comemora. 

Mas não é só a tecnologia que permite ainda mais acessibilidade à informação e a novas aventuras. Fátima declara que o mercado de turismo se mostra cada dia mais democrático. “Está para todos. Acompanho páginas do Instagram e vejo que até cursos de intercâmbio e inglês para terceira idade estão à disposição. Não é desculpa! Com qualquer pesquisa no Google se encontra bastante coisas, como roteiros de vinhos e cruzeiros para solteiros”, complementa.

Incentivo para outras mulheres

Fátima afirma que, para se aventurar, basta querer. “Conheço mulheres que ficaram viúvas e morrem junto com o marido. Não saem de casa, não visitam um shopping se for acompanhada de alguém”, detalha. A fim de incentivar ainda mais outras mulheres a encararem os roteiros turísticos, Fátima criou o canal Só e Plena Pelo Mundo. “Tem esse nome porque eu tenho a filosofia de que estar só não é sinônimo de tristeza e solidão, mas de plenitude em nossa própria companhia”, orgulha-se. 

Quer dicas de lugares para conhecer? Fátima indica conhecer as Serras Gaúchas, onde começou a se aventurar pelo Brasil. “É um lugar que não é agitado como o Nordeste. Quem está com a idade mais avançada, quer descansar, aproveitar a calmaria. É um ótimo destino pela gastronomia e pela acessibilidade. Também pode ser considerado ideal para este perfil justamente por ser um lugar mais caro, então é para as pessoas que já têm sua aposentadoria e com os filhos crescidos”, avalia. 

De acordo com a aventureira, o que falta, hoje em dia, é mostrar para as mulheres que viajar não é um bicho de sete cabeças e que não serão tão julgadas quanto imaginam. “O foco é não ligar para opinião alheia. Quem sabe da nossa alegria somos nós mesmos. Você faz o que quiser e é por isso que gosto de viajar sozinha. Elas têm que perceber que o mundo está aí para conhecermos. Deus nos deu liberdade, podemos ser felizes sem esperar outras pessoas. Se tiver medo, vai com medo mesmo. Ele passa!”, finaliza.

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